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domingo, 10 de dezembro de 2017

ISTO É SPINAL TAP



Trabalhando duro/Agachado no seu pé de ervilha/Arando através de seu pé de feijão/Plantando minha semente(“Sex Farm”. The is Spinal Tap, 1984)



POR LAILA ARAÚJO COELHO

Desde o advento do som no cinema na década de 20 e a inclusão do som digital nos anos oitenta, muita coisa mudou na maneira de como se inserir a trilha sonora nos filmes.



Tudo começou com o filme O Cantor de Jazz (The Jazz Singer, 1927, EUA), que é considerado como o primeiro filme falado e cantado no cinema, na verdade sempre teve falas nos filmes, funcionava assim: enquanto o filme era exibido, atrás da cortina ficava alguma atriz ou ator que dublava as falas ao vivo, meio estranho, mas era assim que faziam.

O ator Al Jolson, que interpreta o cantor do título, Jack Robin, que sonhava em ser famoso é o protagonista deste que é considerado o primeiro filme exibido em grande escala no cinema. O sucesso do filme foi tanto que Jolson se tornou cantor, no Youtube encontram-se algumas de suas canções. Além de ser o primeiro filme cantado, foi o primeiro com um personagem fictício musical que apareceu nos cinemas e que depois continuou com a carreira jazzística.

Várias bandas fictícias foram criadas para fazer parte da história de inúmeros filmes e, algumas eram tão boas que saíram das telas e seguiram com carreira solo. Estamos falando da banda mais falsa de todas, mas que deveria existir, sem bem que eles existem, do jeito deles: Spinal Tap.

Em 1984 é lançado o sátiro documentário ou se assim preferirem, “mockumentary” This is Spinal Tap, dirigido pelo ator Rob Reiner, de O Lobo de Wall Street (2013). Tudo intercalado com entrevistas e depoimentos dos integrantes do Spinal. Eles seguiam a mesma fórmula de outros documentários de rock, como A caminho do leste (1967), Let it Be (1970) e O último concerto de rock (1978). Produzido por Marty Di Bergi (Reiner), que conta a trajetória da banda Spinal Tap e a sua turnê no ano de 1982, para a divulgação do seu novo álbum Smell the Glover (só para lembrar, a capa deste álbum foi polêmica e provocou discussão entre eles, é que a capa trazia uma mulher nua usando apenas uma coleira de cachorro e era obrigada a cheirar uma luva!). Bobbi Flekman chega a questionar Ian sobre a capa: “Ian, você pôs uma mulher nua, de quatro, com o corpo besuntado e uma coleira no pescoço, uma correia, o braço de um homem estendido até aqui segurando a correia e empurrando uma luva negra contra seu rosto, obrigando-a a cheirá-la. Você não acha isso ofensivo?”.

A banda foi formada por dois amigos de infância David St. Hubbings (Michael McKean) e Nigel Tufnel (Christopher Guest) nos anos sessenta, antes eles tocavam no The Originals, que não deu muito certo, pois já existia uma banda com esse nome. O primeiro single, já no Spinal Tap foi Flower Power, o título se popularizou porque fazia parte da luta contra a guerra do Vietnã (essa parte é verdade), só que o ponto forte deles sempre foi o heavy metal.



Um dos baixistas que se destacou foi Derek Smalls (Harry Shearer), que sempre acompanhou a banda, sua marca registrada é cachimbo que ele fuma e o pepino devidamente acomodado em suas calças (para aumentar o “volume”), participou recentemente da turnê One Night Only World Tour, em Londres (fato verídico). Tinha também Viv Savage (David Kaff) que infelizmente morreu na explosão do túmulo do ex-baterista Mick Shrimpton (RJ Parnell), ele tinha ido lá prestar uma última homenagem ao amigo, que coincidentemente também havia explodido no palco.

Porém, a morte sempre rondou os metaleiros do Tap, muitos de seus músicos tiveram um final trágico, para falar a verdade, bizarro é o nome, que vai desde combustão espontânea no palco, sufocamento através do vômito de outra pessoa, acidentes enquanto praticavam jardinagem, (sobre algumas mortes a polícia não quis se manifestar de tão misteriosa que foi), enfim, é Spinal Tap. A perda mais recente foi de Chris "Poppa" Cadeau, em 2008, ele foi engolido pela sua cobra de estimação.

O Spinal Tap assim como várias bandas de Rock, tiveram problemas com o seu produtor musical: Ian Faith (Tony Hendra), foi ele que liberou a capa totalmente preta de Smell the Glover, eliminando a original, o fato é que o disco não fez sucesso e para piorar Jeanine Pettibone (June Chadwick) namorada de Hubbings, começa interferir na maneira como a banda se veste e passa a frequentar as reuniões da banda (a Yoko Ono do Tap), originando desconforto entre os outros membros. David chegou ao cúmulo de sugerir que ela gerenciasse os negócios da banda. Provocando ciúme em Faith, que dizia que ela se vestia como um pesadelo australiano, afinal eles eram melhores amigos. A sua saída da banda foi marcada pelo incidente com a estátua gigante de Stonehenge, Faith se confundiu com o tamanho do pedido feito pela banda, acabou entregando uma miniatura de 18 centímetros, que poderia ser esmagada por um anão, causando constrangimento em todos, eles queriam no palco uma que medisse 18 metros.

Depois da morte de Shrimpton e do quase afastamento de Tufnel, a banda descobre que Sex Farmé muito popular no Japão ficando em quinto lugar nas paradas, graças ao trabalho de Ian Faith. Depois de repassar algumas mensagens de Ian, Nigel fica na coxia para espiar a apresentação de despedida da banda, quando David então resolve chamá-lo novamente ao grupo e a banda parte para uma nova turnê dessa vez na terra do sol nascente. É a volta do metaleiro deus do rock.

Piadas a parte, McKean, Guest e Shearer tocam e cantam de verdade em todo o filme, This is Spinal Tap fez tanto sucesso, que pouco tempo depois eles acabaram se reunindo e fazendo apresentações em ocasiões sérias, como em 1992 no Tributo para o cantor Freddie Mercury, em que eles tocaram “The Majesty of Rock, para Mercury, falecido um ano antes. Já se apresentaram em Festivais de música, Concertos, comercial para televisão (foi para Volkswagen e tinha Nigel Tufnel), aparições nos programas de Jay Leno, Conan O'Brien e Jimmy Fallon .

Alguns músicos se identificaram com a falsa banda, como Ozzy Osbourne declarou que: “Depois de assistir à cena ´Stonehenge´… eu pensei: por que não representar um anão no palco”. Jimmy Page e Robert Plant alegaram que assim como o Tap, também se perderam no caminho para o palco durante algum show (eles não conseguiam achar a entrada que dava para o palco). Glenn Danzig, comentou que eles se pareciam com sua antiga banda. Steven Tyler, líder do Aerosmith, não viu a menor graça quando assistiu ao documentário. Já Edge, guitarrista do U2 chorou de ri quando os viu na tela pela primeira vez. O conhecido álbum preto do Metallica, é uma “homenagem” prestada para a banda, em comparação com a cor do Smell.

Até hoje a banda é respeitada no meio artístico, por músicos, diretores de cinema, servindo de referência em um cenário real e fictício do mundo da música e tem uma legião de fãs espalhados pelo mundo, muitos fãs sabem decoradas as falas do filme. Com a vida levada nas telas dificilmente eles teriam sobrevivido se fossem uma banda verdadeira. A história criada por Rob Reiner é absurdamente exagerada de como vivem os roqueiros. Mas serviu de inspiração para a criação de um novo gênero, A bruxa de Blair (1999); Bob Roberts (1992); e a franquia recente Atividade Paranormal (2007); seguiram a mesma cartilha, mas acabaram se tornando lugar-comum.

Ainda há as inúmeras participações especiais, que contam com Bruno Kirby, que faz um fã ardoroso de Frank Sinatra e ao mesmo tempo é um motorista de limusine, a comediante Fran Drescher é a publicitária Bobbi Flekman e as pequenas, mas não menos discretas performances de Billy Crystal e Dana Carvey, que são garçons e mímicos, mímica vale dinheiro.

Horas de gravações que se tornaram extras, são negociadas pelos colecionadores/aficionados da banda, que ficou de fora na edição feita por Reiner. This Spinal Tap é clássico cult que merece ser visto por quem gosta música, cinema e por quem pensa em montar uma banda.


FICHA TÉCNICA

EUA (SPINAL TAP PROD.)

Direção: Rob Reiner.

Elenco: Rob Reiner, Kimberly Stringer, Chazz Domingueza, Shari Hall, R. J. Parnell, David Kaff, Tony Hendra, Michael McKean, Christopher Guest, Harry Shearer, Bruno Kirby, Jean Cromie, Patrick Maher, Ed Begley Jr. e Danny Kortchmar.

Produção: Karen Murphy.

Roteiro: Christopher Guest, Michael McKean, Rob Reiner e Harry Shearer.

Fotografia: Peter Smokler.

Música: Christopher Guest, Michael McKean, Rob Reiner e Harry Shearer.

Cor.

Duração: 82 min.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

THE STROKES DIVULGA NOVO CLIPE



A banda nova-iorquina The Strokes divulgou nesta semana (28/06), o clipe do single “Threat of Joy”, que faz parte do EP Future, Present, Past. Eles que estão na ativa desde 1998, lançaram em 2013 o último álbum Comedown Machine, completando um total de cinco discos. A banda tem influências do Velvet Underground, Pearl Jam, Beatles e em especial os Ramones. Alguns críticos comparam a maneira de Julian Casablancas cantar, com a do falecido cantor Lou Reed. Em 2014 Casablancas passou pelo Brasil quando se apresentou no Festival Lollapalooza, em que foi criticado pela qualidade do show por alguns sites de músicas.

O clipe é sobre como um material que tinha sido gravado para outro vídeo havia sido roubado, as cenas são misturadas com outras que não têm sentido. Enquanto isso eles aparecem tocando “Threat of Joy”.

Abaixo link do Youtube e a tradução da música:
 

 
Ameaça de Alegria (“Threat of Joy”)
                                        
OK
Eu entendo como é agora
Você não tem tempo para brincar comigo mais
É assim que vai ser agora, eu acho
Foda-se o resto
Já estou indo, querida!
 
Eu vou tomar meu tempo para dizer
Tomar meu tempo hoje
 
Vou aceitar o que vier para mim
Aceitar o que eles me dão
 
Sim, eu quero meu dinheiro agora
Mas ele não está por perto
É melhor você guardar meu dinheiro com segurança
Qual é a sua emergência?
 
E pela primeira vez na minha vida
Eu vou me deixar bem
Basta entrar em apuros
Estar lá o dobro
 
Faça suas apostas dessa vez
Só tem que deixar acontecer
Eu te-tentei rolar uma vez
Mas os dados estão em liberdade condicional
 
Eu não vou olhar para baixo seu vestido
Aposto que você vai se curvar só pra testar
Eu não posso esperar para perseguir tudo isso
Sim, eu vi isso na minha bola de cristal
 
A sexta à noite está brilhando como
Um segredo para um espião
Eu tenho uma ideia melhor
Vou te fazer uma outra aposta
 
Quando eu chegar até o seu rosto
Você sabe que não é nenhuma surpresa
Ah querida, por que é tão difícil ler
A frase nos meus olhos?
 
E pela quarta vez
Correntes em suas pernas
Eu passei um tempo
E então decidi escolher você
 
Minha boneca
Você ignorou sua vida
Nós vamos fazer isso juntos
Eu vou estar lá sempre
 
Oh, você checou eles em suas covas
E disse: Positivo, eles estão bem
Estou indo assistir o maremoto
É difícil afastar
Ooh
Ooh
(Tenho que afastar)
(Difícil afastar)
(É difícil afastar)
 
 

terça-feira, 7 de abril de 2015

O TERNO


FORMAÇÃO ORIGINAL DA BANDA O TERNO
Por Laila Araujo Coelho
Os anos sessenta foi uma década que influenciou os movimentos da contracultura. Nessa época o rock and roll passa a ser chamado apenas de rock, e o seu principal expoente dentro do gênero são os Beatles (John Lennon, Paul McCartney, George Harrison, Ringo Star). E até hoje continuaram servindo de referência para inúmeras bandas, entre elas os paulistas do O Terno. Mas as referências, influências ou homenagens, não se restringem apenas aos rapazes de Liverpool (Reino Unido), com toques da Jovem Guarda, como na primeira faixa que abre o segundo álbum da banda: “Bote ao Contrário”. Eles fazem um som com uma pegada de rock, bossa nova e vanguarda.

Até da fonte do Tropicalismo eles já beberam, como nos arranjos de “Ai, ai, Como Eu Me Iludo”, forte influência do disco-manifesto Tropicália ou Panis et Circensis (1968), que tinha Gal Costa, Mutantes, Nara Leão e o Tom Zé, este último que é personagem da letra irônica, “Papa Francisco perdoa Tom Zé”. A participação do psicodélico cantor é intensificada na faixa “Medo do Medo”, com solos de guitarra nervosos de Bernardes, que fala sobre tristeza, dor e uma leve pitada de suicídio, do disco homônimo O Terno (2014).

DIVULGAÇÃO PROMOCIONAL DO ÁLBUM O TERNO (2014)
 
A banda é formada pelo guitarrista Tim (Martin) Bernardes (vocal e piano), pelo baixista Guilherme de D´Almeida (Peixe) e pelo baterista Gabriel Basile (que já vinha acompanhando a banda nos últimos shows que fizeram no nordeste), que ficou no lugar de Victor Chaves, que permaneceu junto ao trio por seis anos.

Eles estão na ativa desde 2009, mas foi só em 2012 que lançaram o seu primeiro álbum: 66, que saiu de forma totalmente independente e com um surpreendente apoio da crítica musical e do público. Tiveram talento e sorte. O jornal O Globo classificaram o disco da banda como sendo, “um dos mais impressionantes discos de estreia de uma banda brasileira”. Pela revista brasileira Rolling Stones eles ficaram entre os 25 melhores álbuns de 2012. E no Prêmio Multishow (2012), venceram na categoria de melhor clipe, com o molhado e divertido “66”, produzido pela Alaska Filmes, dirigido por Marco Lafer e Gustavo Moraes. A banda aparece tocando debaixo d´água, dentro de uma piscina e em outros cenários aquáticos. A letra rebelde fala justamente da comparação da crítica com o estilo musical retrô; anos sessenta do disco, que o que eles cantam, já foi cantado por outras inúmeras bandas, e se inovarem, vão falar mal.
 

Em 66 o disco deixa transparecer mais uma busca por uma identidade sonora. Assumidamente influenciados pela musicalidade da década de sessenta e a perseguição por mostrar um som atual, esse novo rock que vem se desenvolvendo desde os anos dois mil. Como na terceira faixa “Eu não preciso de Ninguém”, que entra o rock clássico e inconsequente.

Na mesma pegada psicodélica eles entregam “Zé, Assassino compulsivo”, com algumas histerias e humor negro: Enforcou sua coleguinha quando era do pré/Mas que belo assassino que Zé se tornou/Sempre alegre a cantar, a colega ele matou/Zé pegou a namorada com um amante, nu/E em vários pedacinhos Zé o picotou/Escondeu todos os restos lá no seu jardim/E alegre e sorridente Zé cantava assim. Que bem lembra o personagem Alex DeLarge (Malcolm McDowell) no filme Laranja Mecânica (A Clockwork Orange,1971,EUA) de Stanley Kubrick, na famosa cena de violência em que Alex invade a casa do escritor, enquanto canta I'm singing in the rain.

 “Morto” exala as cores de Araçá Azul (1973) de Caetano Veloso, Se você quiser acreditar/No cemitério do Araçá/Tem uma pedra com seu nome. O universo do cantor baiano ainda é percebido, ou seria perseguido em “Eu não preciso de ninguém”, com muito bom humor e diálogos sensíveis eles deixam transparecer aspectos das composições de Caetano.

Divagam por algumas décadas e estilos musicais conhecidos e se fundem na vanguarda urbana paulistana, famosa nos anos oitenta. Dois anos antes já tinha aparecido o grupo Garotas Suecas em Escaldante Banda, claro que com menos rebusco. Os protagonistas de 66 são as guitarras que sustentam a base para que a tríade masculina se expresse de forma nostálgica e criativa, juntamente com os versos irônicos e autorais, entregando um dos álbuns mais inventivos de 2012.

O disco tem 10 faixas, sendo que cinco delas são autorais, as outras são de Maurício Pereira (Os Mulheres Negras) com arranjos do trio. Com uma proposta instrumental autêntica, eles poderiam até parecer um tanto repetitivos para os menos atentos. Só que a força das letras e a bagagem musical empregada com maturidade e o poder vocal de Tim Bernardes transformam a sonoridade da banda que vai desde uma leveza até a complexidade de versos, bem melhor do que outras bandas que já apareceram por aí.

O LOLLAPALOOZA 2015 FOI DE TERNO

Um festival conhecido por trazer as bandas do cenário indie mundial para terras brasilis, nada mais justo do que ter em um de seus palcos a melhor banda rock independente da atualidade.

 
Eles se apresentaram no segundo dia do festival (29/03), debaixo de céu nublado, assim como na letra “O Cinza”, trajando capas de chuva amarelas. As investidas nostálgicas do grupo paulistano parecem ter agradado não somente ao público, mas a crítica também, que elogiou a qualidade técnica do trio.

Mesmo sendo prejudicado por falhas no som, O Terno entregou afinação nos acordes de guitarra, piano e no órgão Hammond de Bernardes. Até ironizaram quando agradeceram Jack White e Robert Plant, “Que sorte a nossa de ter gente como Robert Plant e Jack White abrindo nosso show”, brincou Tim Bernardes.

As músicas que mais empolgaram foram “Eu não preciso de ninguém”, “Papa Francisco perdoa Tom Zé”, “Ai, ai, como eu me iludo” e o hit psicopata “Zé, assassino compulsivo”. Aos poucos eles estão rompendo com o estilo “tradicional” pelo que se entende como características de uma banda de rock.

O Terno faz parte dos novos artistas que surgiram pós-2010, ainda que causem impacto logo de cara por causa do tropicalismo de Caetano Veloso, tão clara na letra, Todo dia a gente pensa que dorme/Mas ninguém sabe o que acontece/Quando estamos todos dormindo. De Transa (1972) do clássico álbum do cantor e fonte de influência quase que paranoica.


TIC-TAC/HARMONIUM

Em novembro de 2013 O Terno apresenta o EP Tic Tac/Harmonium, que tem o lado A e B, com o nome das músicas respectivamente. Quem ouviu a versão online conferiu o bônus track “Blood Stains”, cantada pelo alter ego da banda “The Suit”.

Somos escravos do tempo e o relógio é o martelinho pertinente que nos persegue durante toda a vida, “Tic Tac” fala exatamente disso e da correria da vida moderna (no clipe fica bem explícito).  

“Harmonium” prende-se numa lenta tristeza, Será que ninguém/Consegue assistir/O que a gente faz/Sozinhos aqui/Será que depois/Que a gente morrer/Vamos assistir/O que não deu pra ver/Num grande cinema/Com quem já morreu. É realmente o lado B, oposto daquilo que foi visitado pela banda em 66.

A década de setenta e a influência do Soul Music em artistas como James Brown, Tim Maia e Amy Winehouse, todos serviram de ingredientes para compor as músicas do EP. Tudo o que eles mostraram no disco anterior se transformou em uma lista assertiva de referências que permeiam todo o universo da banda, incluindo os dois discos e o EP.

E mais uma vez a banda acerta na qualidade da relação do som com o vídeo, no clipe “Tic Tic”, que foi produzido pela Amnésia Filme. O clipe é a integração da letra com os acordes da música. Eles são confiantes e sabem o que estão vendendo para o público.
 

Mesmo sem ter uma quantidade razoável de vídeo clipes, eles surgem de uma maneira tão natural, que é fácil absorver o que eles estão tentando expressar. Eles brincam com a relação do tempo, a imagem em câmera lenta na corrida promovida pelo trio, vai absorvendo os mais fracos, causando um impacto maior conforme a faixa vai acelerando.

ÁLBUM “O TERNO” (2014)

CAPA DO ÚLTIMO DISCO

Depois de usurparem até a última gota de inspiração que os anos sessenta deixaram através de bandas como Os Beatles, Mutantes, The Kinks, Tom Zé... O Terno entrega o atemporal disco que leva o mesmo nome da banda, consolidando de vez o stalker pela figura do cantor e compositor Caetano Veloso. Mas, com a mesma verve psicodélica irônica de seu antecessor, 66. Sem a sonoridade tão saudosista que impregnou, deixando para trás a década tão influente.

Do resgate nostálgico do disco de estreia, agora soa mais como uma inspiração conceitual, deixando-os mais “organizados”. Os arranjos e letras evoluíram para mostrar o novo segmento sonoro desenvolvido pela banda.

Os versos tortos e a visão deles da Paulicéia Desvairada, são vista na segunda faixa de abertura, “O Cinza”. A guitarra ensurdecedora de Bernardes e o seu poderoso vocal vão de encontro ao oposto do vintage do passado. Eu abro o olho e vejo no meio da rua/Sinal fechado o tempo passa e nada muda/O povo corre mas não sabe bem pra onde/No fundo só querem fugir pra muito longe/Mais um fim de tarde que garou em SP. Com uma letra que foge do genérico, usando a descrição para compor uma homenagem a cidade de São Paulo.

Mais abrangente do que o disco anterior, que metade dele era de composições do pai de Bernardes, Mauricio Pereira. Este último abre espaço para o regaste de uma nova estética, já conhecida em 66. Como a já mencionada “Medo do Medo”, assustadora. Abre passagem para o amor, mesmo que de forma retraída, Juntos por todo esse tempo/Às vezes eu me lamento/Eu fui feliz do seu lado, em “Eu vou ter Saudades”. Acentuando o inteligente humor irônico conhecido do trio com “Brazil”.

 Se em seu début O Terno fazia experimentos na busca da “identidade sonora”, apoiados no que os anos sessenta tinham a oferecer, na segunda empreitada eles assumem a maturidade e a evolução do que seria uma banda de rock garage.

As participações especiais do último disco vão desde Tom Zé, e a sua presença psicodélica; Marcelo Jeneci é o convidado que toca um órgão farfisa na fantasiosa “Quando estamos todos dormindo”; um verdadeiro órgão Hammond da década de sessenta é tocado pelo músico da banda Cachorro Grande, Pedro Pelotas, nas faixas “Ai, ai, como eu me iludo, que lembra as músicas dos antigos festivais e na balada “Eu vou ter saudades”, Luiz Chagas, Tulipa Ruiz e Arnaldo Baptista (Os Mutantes) também participam dessa última, lembrando que O Terno começou tocando covers dos Mutantes; a faixa “Desaparecido” tem as pinceladas cinematográficas da dupla André Vac e Gabriel Milliet (Memórias de um Caramujo), com rabecas e sopros em um universo bem camerístico.

A gravação do segundo disco foi um pouco mais demorada e detalhada, eles utilizaram o Estúdio Canoa, para produzirem e colocarem em prática todas as teorias, experimentos, referências e ideias acumuladas durante os últimos anos. A mixagem ficou por conta de Gui Jesus Toledo e preferiram gravar primeiro as bases ao vivo, para depois injetarem os overdubs.

O Terno também pode ser encontrado em dois formatos: de CD, que têm a distribuição pela Tratore e em vinil (um pouco mais caro, mas que compensa), com ajuda do Selo Gaúcho 180 e o selo paulista RISCO, que abriga Memórias de Um Caramujo, Os Mojos Workers, Luiza Lian e Charlie & Os Marretas.

Classic Album é o fake doc que a banda lançou para divulgar o segundo disco, uma autopromoção original que passeia pelo retrô em parceria com uma lista de referências já conhecidas pelo público há mais de quatro décadas. Eles brincam com o passado e o presente em um vídeo bem editado, que conta com depoimentos de astros da música do quilate de Roger Walters, Eric Clapton, Ringo Starr, Stevie Wonder, David Gilmour e Tom Zé. Todos eles falam sobre a importância do O Terno na cena musical, e o que eles representam hoje. De propósito a banda teria existido na década de sessenta.
 

Para finalizarem o disco eles pediram uma vaquinha virtual, para pagar as despesas com a pós-produção, que incluía os custos do CD, vinil, prensas para capa de ambos, design gráfico do disco e resto das gravações em estúdio. A contribuição foi além do que eles precisavam e quem contribuiu pôde receber em casa pelos correios o material prontinho da banda.

Apesar do espírito dos anos sessenta presente nos dois discos, eles também demostram referências com a musicalidade atual, com leve inspiração na banda goiana Boogarins. Uma inspiração distinta, enquanto eles falam de temas campestres, mas com o mesmo estilo de arranjos perversos, O Terno se apoia na vida urbana com “O Cinza”.

O disco é todo contrastado por versos psicodélicos, já característica da banda, com letras intimistas, elevando o rock n´ roll ao patamar mais experiente e vibrante, perpetuado com o poder dos três. Entregando-se as particularidades que envolvem o brega brasileiro, incluindo novos e velhos experimentos já utilizados pela banda. O álbum O Terno crava de vez o estilo musical da banda e entregam um repertório de músicas originais e sonoridade harmônica.

 

 

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

QUEENS OF THE STONE AGE É ATRAÇÃO NO ROCK IN RIO 2015


Por Laila Araujo Coelho

Queens Of The Stone Age


O Queens Of The Stone Age é mais uma banda confirmada para a sexta edição do Rock In Rio, que acontecerá entre os dias 18, 19, 20, 24, 25, 26 e 27, no mês de setembro, na Cidade do Rock, no Rio de Janeiro.

Será a quarta apresentação da banda americana no país, a primeira vez foi em 2001, também no Rock In Rio, eles estiveram aqui no ano passado no Lollapalooza e neste ano para divulgação do último disco: ...Like Clockwork.

...Like Clockwork capa do último disco


Josh Homme, vocalista e criador da banda, por sinal o único desde a formação original em 1996, a banda ganhou notoriedade pela constante mudança de integrantes e por tornar conhecido um novo gênero musical, o stoner rock, que mistura elementos do hard rock, rock psicodélico e blues. A finada Kyuss (que Josh fazia parte), Down, do ex-vocalista do Pantera, Phil Anselmo e Black Mountain, são todas consideradas representantes do estilo stoner rock.

A primeira parte dos ingressos foi liberada no mês passado, quem teve a sorte de adquirir um dos 100 mil Rock In Rio Cards, pagou R$ 320 a inteira e R$ 160 meia (valor disponível apenas para estudantes). Os sortudos já garantiram a entrada para o evento mesmo antes da confirmação de todas as bandas. Ainda podem escolher qual dia pretendem usar os ingressos.

Os outros nomes para a edição brasileira do Rock In Rio 2015, até agora que confirmaram presença são eles: Katy Perry, A-Ha e System Of A Down (que vai tocar no mesmo dia do QotSA), que se apresentarão no Palco Mundo, e John Legend, já confirmado para o Palco Sunset.


Nick Oliveri

Em 2001 durante a apresentação do QotSA o baixista, Nick Oliveri, resolveu tocar completamente pelado, na época a banda nem era tão conhecida por aqui, a situação chamou mais atenção do que a apresentação deles. Depois de ter sido detido e liberado em seguida, Oliveri comentou que já havia se apresentado nu em outros lugares e que foi a primeira vez que tinha tido problemas.

Josh Homme, recentemente em entrevista, mencionou vontade de tocar solo, utilizando apenas  um violão, tocando alguns covers, para ele é uma boa maneira de ser trabalhar, servindo como uma transição entre um formato e outro.

DISCOGRAFIA QUEENS OF THE STONE AGE

1998 - Queens of the Stone Age

 2000 - Rated R

 2002 - Songs For The Deaf

 2005 - Lullabies To Paralyze

 2007 - Era Vulgaris

 2013 - ...Like Clockwork

domingo, 23 de novembro de 2014

DISSECANDO O CAVALO


Por Laila Araújo Coelho


Depois de sete anos exilado nos Estados Unidos (motivo desconhecido), acabou resultando no seu primeiro trabalho depois da investida em “Little Joy”. O novo álbum tem clara evidência da herança deixada pela sua ex-banda, Los Hermanos. É um álbum para poucos, aliás, é para ser ouvido sozinho (a), no silêncio, em uma fuga talvez.

Na faixa Irene, ele fala da saudade (do Brasil?!?), como uma lembrança que volta e meia o assombra. Essa assombração é de um amor que ele não consegue esquecer, mas que ainda está lá, não é necessariamente uma “mulher”, pode ser um lugar, um livro, até mesmo uma viagem inesquecível. Amarante a descreve também como sendo uma homenagem a Irene de Caetano Veloso. “Saudade, eu te matei de fome/ E tarde, eu te enterrei com a mágoa/ Se hoje eu já não sei teu nome/ Teu rosto nunca me deu trégua”. Irene é tão linda, tão bossa, tão melancólica.

Nada em Vão, a primeira que abre o disco foi à última a ser feita, ela nem ia entrar, mas fala justamente do espaço que existe entre duas pessoas, tenta medir essas lacunas em melodias, já que ela tem espaços enormes. “Quando eu vejo você / Me olhando assim / Vendo em mim / O que eu vejo em ti/ Qual razão/ É medir o imenso da sede/ Se cede o senso/ À sensação”.

Ele fala do exílio, em “Tardei”, última faixa, quando se pergunta: “Onde está o meu lugar?”. Responde de forma misteriosa, até sombria, “Desceu pelo rio/ Da terra pro mar/ Um fio de prata que me leva”. Esse fio de prata é muito realismo fantástico.

A minha favorita é a que leva o nome do álbum, Cavalo. Meio sobrenatural, parece um sonho febril, delírio, ela é mística. Ele faz uma homenagem à arte japonesa, com o lance do poema no meio da música. O véu de cal que ele se refere é a neve, de um filme antigo do Kurosawa, em que alguns homens ficam perdidos na neve ao tentar encontrar um acampamento. Uma mulher em forma de tempestade acolhe um deles, ela significa a morte e quando o sol se abre ele morre. “De espuma prata e sal/ A bruma no areal/ Um véu de cal/ O fogo frio/ No cio”.

Ainda há referências literárias em “Mon Nom” ao escritor Camus. A presença de outros idiomas pode ser entendida como a distância que Amarante estava do Brasil, levando a entender que o disco faz parte desse tempo que ele passou fora. É um disco amargo e solitário, como parece que foi a estadia do músico em outro país.

FAIXAS

1.     Nada em Vão (00:03:05)

2.     Hourglass (00:03:32)

3.     Mon Nom (00:04:08)

4.     Irene (00:03:17)

5.     Maná (00:02:39)

6.     Fall Asleep (00:03:19)

7.     The Ribbon (00:04:49)

8.     O Cometa (00:02:52)

9.     Cavalo (00:02:36)

10. I´m Ready (00:03:49)

11. Tardei (00:03:35)


ARTISTA: RODRIGO AMARANTE

ÁLBUM: CAVALO

GÊNERO: FOLK/ROCK

ANO: 2013